Viana nasceu em Araçatiba e, além de berço histórico da cidade, onde abriga monumentos simbólicos, como a igreja Nossa Senhora d’Ajuda, recém-restaurada, o território é a casa do movimento popular da comunidade negra, como a centenária banda de Congo Mãe Petronilha e os guardiões das estórias e histórias locais, os griôs. Araçatiba, portanto, é uma comunidade que se orgulha da rica história, das tradições e das raízes, sobretudo, africanas.
Aristide Edgar Assavedo veio do Benin, país da África Ocidental, com população aproximada de 15,1 milhões de habitantes, tem nacionalidade nigeriana e brasileira e fala diversas línguas, entre elas francês, inglês e, claro, o português. Há dez anos no Brasil, formou-se em direito na UFES e hoje é assessor jurídico da Procuradoria-Geral de Viana. E topou fazer uma visita a Araçatiba, um reduto da cultura negra em Viana.
O dia inteiro foi uma troca. Na chegada, Aristide teve uma recepção acalourada de todas as salas da EMEF Araçatiba com músicas criadas pelos alunos e traduzidas para a língua brasileira de sinais, simultaneamente. As crianças se encantaram com o sotaque de Aristide e quiseram logo aprender algumas palavras em francês, em troca, ensinaram ao assessor frases inteiras em libras e o professor de libras, pessoa surda, deu um sinal a ele.
A turma do projeto “Araçatiba - Patrimônio e Cultura: eu faço parte dessa história”, levou o Aristide a locais históricos e culturais da comunidade, como o letreiro, e explicaram o significado do nome da comunidade: “Araçatiba era cheia de pés de araçá, fruta nativa da região, e o cacique da tribo indígena que vivia nas terras teve uma filha chamada Tiba e para homenageá-la, colocou o nome da região como a junção das duas palavras”.
Na sequência, ainda em um intercâmbio de idiomas, o ponto de parada foi a “Árvore que Chora”, que guarda uma grande lenda da comunidade. As crianças contaram a história para Aristide: “um pai, enlutado pela morte da esposa após o parto da filha, decidiu abandonar a criança aos pés da árvore. A lenda conta que a árvore emite som semelhante ao choro de um bebê, assustando todos que passam pelo local”. A explicação física é que os cipós da árvore batem uns nos outros, fazendo o barulho. No entanto, em uma noite escura e chuvosa, ficar nas proximidades da “Árvore que Chora” é para os corajosos.
Deixando as lendas de lado, a árvore esplendorosa é um mulembá, espécie presente em países africanos, como Angola. Nessas localidades, elas são sagradas, representam a sabedoria e o elo entre o mundo dos vivos e dos antepassados. Aristide contou também que essa árvore simboliza sabedoria e que “quando você viajar para África você vai encontrar muitas árvores grandes assim que parecem uma casa”.
O próximo ponto da viagem foi a bicentenária igreja Nossa Senhora d’Ajuda. O monumento do século XVIII, símbolo da presença jesuítica no Brasil Colônia, foi cuidadosamente restaurado após quatro anos de interdição. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) desde 1950, o conjunto histórico preserva não apenas a arquitetura e os elementos originais da antiga fazenda, mas também a identidade e a memória da comunidade, que mantém viva a história do local até os dias atuais.
Aos pés da igreja, o momento mais emocionante aconteceu. A apresentação de componentes da centenária Banda de Congo Mãe Petronilha junto à Banda Mirim da EMEF Araçatiba foi apoteótica. “Eu me lembrei da minha infância no Benin, quando meus primos tocavam os instrumentos e a gente dançava. O jeito deles tocarem os instrumentos me fez sentir que mesmo estando no Brasil, fui transportado para a África. O congo é uma extensão da melodia africana. Tive um sentimento de pertencimento naquele lugar”.
Para finalizar, a quadra da comunidade virou auditório e em seguida, sala de jogos. Aristide já tinha virado ‘tio Ari” e levou um pouco da sua experiência para os alunos, bem como, explicou a importância da educação para o crescimento. E como o francês chamou a atenção de todos, o tio Ari ensinou aos pequenos a brincadeira “La Mer e La Terre” fazendo a diversão da criançada.
Ao fim do trajeto, depois de absorver todas as experiências, Aristide trouxe uma reflexão: “Essas crianças me ensinaram muita coisa, sobretudo que a cultura não tem a ver só com o território, tem a ver com a educação. Principalmente a forma como estão sendo educados, valorizando as culturas e a ancestralidade africana. A gente percebe que a educação quando é bem dada, consegue transformar vidas!”
O projeto “Araçatiba - Patrimônio e Cultura: eu faço parte dessa história” é uma realização dos alunos da EMEF Araçatiba com objetivo de reforçar o pertencimento e orgulho de viver na região e exportar o conhecimento a quem visita a escola. Segundo a diretora, Andrea Lube, “o projeto nasceu da vontade de trazer a comunidade para dentro da escola, o intuito é da iniciativa é que a criança se reconheça e faça a sua autodeclaração, o projeto carrega consigo quatro pilares da educação: aprender a conhecer, fazer, conviver e ser - tudo de forma lúdica, prazerosa e fomentando o protagonismo das crianças”.
As experiências foram inesquecíveis e enriquecedoras, para todos os lados. Além disso, mostra o compromisso da melhor educação da Grande Vitória em promover o orgulho e valorizar a cultura local.
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Texto: Israel Magioni
Publicado em quarta-feira, 22 de julho de 2026
Atualizado em quarta-feira, 22 de julho de 2026
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